quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Solidão

Há alguns dias, ao ver o Telejornal, assisti à "forma televisiva" da notícia que transcrevo (em parte) abaixo. Perdoem-me a morbidez do tema, mas deu-me que pensar...


Instituto Medicina Legal: Cerca de 80 corpos ficam por reclamar todos os anos

Todos os anos, cerca de 80 corpos ficam por reclamar nos gabinetes médico-legais do Instituto Nacional de Medicina Legal, a maioria de sem-abrigo, toxicodependentes e imigrantes. Este ano, já ultrapassa a meia centena os mortos que ninguém chora.


Dados do Ministério da Justiça avançados à agência Lusa indicam que, no ano passado, ficaram por reclamar pelas famílias 67 corpos e este ano são já 55, a maioria em Lisboa (18) e no Porto (16).

"São essencialmente casos de pessoas idosas desprezadas pela família, que morrem sozinhas na habitação, num hospital ou num lar de idosos da Segurança Social e depois as famílias não os reclamam para, se calhar, não terem a despesa inerente a um funeral", disse à agência Lusa o presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), Duarte Nuno Vieira.
Entre estes casos estão também muitos toxicodependentes, com idades entre os 30 e os 40 anos, que foram marginalizados pela sociedade e desligados das famílias. (...) Há também muitos imigrantes, principalmente de Leste, que morrem e as famílias não têm recursos económicos para pagar o seu repatriamento, acabando por nunca reclamar os corpos.

Por lei, o prazo máximo que os mortos não reclamados podem ficar nos serviços médico-legais é de 30 dias. Mas há excepções, conforme explicou Duarte Nuno Vieira: "quando sabemos que andam a tentar encontrar a família ou que é um imigrante e que a família está a tentar reunir dinheiro para repatriá-lo, nós, desde que tenhamos capacidade para armazenar o corpo, retemo-lo por mais tempo, às vezes por dois, três ou quatro meses".

Compete depois às câmaras municipais das cidades, onde há as delegações do INML, proceder ao enterramento do corpo, que tem a sua campa identificada com um número atribuído pelo cemitério caso apareça algum familiar. (...) A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) enterrou, entre Outubro de 2007 e Outubro deste ano, 146 mortos no concelho de Lisboa, (...) disse à Lusa o irmão provedor Pedro Vasconcelos, da Irmandade de São Roque, que tem como missão fazer as cerimónias fúnebres destas pessoas.

Alguns são mesmo enterrados sem ninguém saber quem são, pois não têm qualquer cartão que os identifique. Mas como não se sabe a religião que tinham, a Irmandade decidiu fazer, a partir do próximo ano, uma cerimónia com representantes de todas as confissões religiosas.


Fonte: http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=369952&visual=26&rss=0




Em que estado de solidão é preciso viver para que, ao morrer, ninguém se lembre de nós? Ninguém sinta a nossa falta? Ninguém repare?

Que mundo é este em que aqueles que nos criaram e nos ensinaram e nos deram tantas vezes o melhor de si se convertem numa despesa incómoda, numa homenagem que é dispensável? Num adeus que não precisa de ser dito?

Que mundo é este em que os vivos morrem para os outros vivos muito antes de o seu corpo morrer de facto? Como é possível isso não nos afectar? Como é possível perdermos o rasto àqueles que amamos, que carregámos na barriga, que nos carregaram?

Será que um dia também se vão esquecer de nós? Também vamos ser um peso morto, um desperdício de dinheiro, um número num cemitério qualquer? Será que vou chegar ao fim da minha vida sem importância para quem quer que seja?

Fico a pensar, cheia de medo, que também posso vir a viver nesta total solidão e o quão doloroso isso deve ser. Posso acabar os meus dias num qualquer canto do mundo longe de todos os que algum dia gostaram de mim. Ou numa cama de hospital, abandonada para morrer, como tantos. Ou no meio da rua, dentro de uma caixa de cartão, sem que quem passa note sequer que ali estou. Quem sabe as voltas que a vida dá? Se assim fôr, quem poderá dizer o dia em que morri? Ninguém, só eu. Pois terei morrido muito antes do que parecerá.

Resta-me a esperança e a vontade firme de, pelo menos, nunca ver isso acontecer nem comigo nem com aqueles de quem gosto. Pois mais importante do que cuidar na morte é cuidar em vida, e uma coisa leva à outra.

E de resto, aqueles de quem gostamos, quando partem, vivem através de nós, nas nossas lembranças...

2 comentários:

Pintar a vida disse...

É muito triste quando as pessoas são abandonadas até na morte!
Não tinham ninguém? Um amigo? Familiar? Ninguém?

Como é possível as pessoas darem tanto valor ao dinheiro? O dinheiro vale mais que uma vida? O dinheiro vale mais que abandonar uma pessoa? O dinheiro vale mais do que um sítio digno para descansarem depois da morte corporal?

Vivemos mesmo num mundo às avessas!

Enfermeira disse...

A morte é sempre triste...mesmo que ninguém chore, mesmo que seja por uma boa causa, mesmo que seja uma pessoa má, mesmo que seja um alívio da dor...não consigo encarar a morte de forma serena, mesmo depois de já ter assistido a muitas mortes...a morte é um mistério, é uma viagem sem regresso, é saudade...